Há um temor (ou torcida? 🤔) que a inteligência artificial poderá substituir o professor em um futuro mais que próximo. Como exercício mental de ansied... er... curiosidade, resolvi ponderar sobre a premissa.
Entre minhas responsabilidades, tenho um componente do itinerário formativo sobre história (d)e animação. Fui então ao ChatGPT e "promptei" para que gerasse uma aula contextualizada sobre a influência do antigo e finado estúdio UPA nos desenhos da TV a cabo dos anos 1990. Em dez segundos, a tela cuspiu um plano de aula estruturado com objetivos, competências da BNCC, metodologias ativas e referências concretas... Um tanto estéril, mas relativamente jeitosinho.
Reclinei na estalante cadeira da sala dos professores, e comecei a imaginar o robô "entrando" na sala de aula. Nos primeiros minutos, o Wi-Fi da escola oscila, balança-mas-não-cai, caiu, voltou, YouTube não abre... A recém-rebatizada pelo belicoso POTUS como "superinteligência", com seus teraflops de processamento, tenta carregar o trecho de "O Laboratório de Dexter" para ilustrar o design geométrico e "limitado" herdado da UPA. Sem uma conexão real, o sistema dele entra em standby.
Na vida em carne e osso, a sala já farejou o sangue: o fundo começa a debater calorosamente se Jojo Careca vai voltar com MC Paiva, enquanto Léoh (com H e TDAH) aproveita o blecaute digital para se levantar, e tentar farmar aura em um torneio de 67 (six seven!) e mewing com Gael (Sem H, mas com TOD)...
O plano do ChatGPT previa uma "metodologia ativa com debate socrático entre os pares" (i.e. guiado por perguntas sistemáticas). Mas o robô é interrompido pela palidrômica Hannah, que lança a questão filosófica: "Ô, teacher! Isso que o senhor tá falando vai cair na prova? Porque eu queria adiantar a tarefa de matemática... (Uma inverdade aqui: ela nem ia perguntar e já estaria nos números desde que entrou na sala). Khayky já baixou a cabeça pra dormir...
Antes que a Skynet 2.0 possa acionar algum módulo de gestão de crise, a porta se abre. É a coordenação avisando que a partir do terceiro horário, a escola vai ficar sem energia elétrica por conta de uma manutenção da rede. Os reparos devem durar até o fim da manhã...
Olho de volta para a tela do meu notebook. Talvez a IA possa realmente nos substituir... Talvez os estudantes vindouros possam se comportar como simulacros digitais reprogramáveis... Salas de aulas estejam altamente equipadas e climatizadas (nada desses atuais pó-condicionados)... Talvez a desigualdade social do país acabe aqui...
Na trincheira do dia a dia, nenhum processador quântico ainda consegue substituir o jogo de cintura de quem consegue prender a atenção de trinta ou mais seres humanos na base do gogó, do piloto e da pura perseverança.
Robô nenhum aguenta o tranco do nosso cotidiano, colegas. O silício deles derreteria antes do primeiro intervalo.
Feliz Dia dos Professores para quem opera transformações orgânicas todos os dias!
*Para preservar a identidade dos estudantes (e o meu réu primário), os nomes citados nesta crônica (com ou sem H) são fictícios. Para o bem ou para o mal, outros personagens são bem reais.