Sinto-me como um cão raivoso. Um cão cuja raiva incontrolável afasta todos à sua volta, causando pânico. Um cão que, após o ápice de sua fúria, recolhe-se sozinho, com o rabo entre as pernas, e começa a chorar, arrependido e envergonhado, pois aprendeu a enxergar em sua própria raiva um mecanismo de defesa.
Esse cão não quer agir dessa maneira. Na verdade, por trás de tantos rosnados e dentes a mostra, sua alma queima por carinho, por afeto. Ele só quer ser acolhido e escolhido, ter um lugar para descansar a cabeça sem estar em alerta a espera de um golpe, de poder amar e ser amado; poder ser verdadeiramente quem é, mas como? Se nem ele mesmo sabe sua identidade pura e verdadeira; pois a vida o fez assim: zangado.
Sua fúria, na verdade, é como um grito de socorro lançado em um buraco profundo, onde, por mais que ele grite, ninguém o escuta. Resta-lhe apenas o eco de seu desespero, o reflexo de anos enfrentando o peso de uma vida que lhe foi empurrada goela abaixo; uma vida em que sequer tem o direito de fazer as próprias escolhas, em que sequer lhe foi dado o direito de escolher.
Entre a vida e a morte. Claro que escolheria a morte, mas, agora que está vivo, apenas empurra a vida com a barriga, esperando o dia em que ela finalmente o leve para longe desse desespero profundo.
Às vezes, ou quase sempre, é assim que me sinto: como esse cão incontrolável.