Quem sou eu?
Sou o sopro e a ruína, o cosmo e a escuridão,
O próprio universo e o mais absoluto vazio na amplidão.
Trago comigo o veneno, mas trago também a cura,
No tabuleiro incerto da minha própria loucura.
Se me perguntassem qual carta rege o meu destino,
Eu seria O Louco, errante, ousado, menino,
Que dá o passo no abismo sem medo do que há de ver,
Pois sabe que é preciso morrer para renascer.
Sou aquele que anseia ver o mundo e caminhar,
Mas que também olha o fim sem medo de encarar.
Não por dor ou tristeza, mas por pura intuição:
A morte é só a porta para uma nova amplidão,
O começo de um ciclo, uma nova aventura,
Onde a alma desperta para além da terra dura.
Na vastidão da mente, sou o próprio criador,
Um Deus de cartola e sombras que edifica sem temor.
Trago o peito de um bravo, valente no combater,
E a sombra do covarde quando prefiro me esconder.
Já me chamam de frio, arrogante ou sem razão,
Mas não vêem a lealdade no meu fundo coração,
Pois ao amigo leal sei me dar por inteiro,
Sou o abrigo sincero e o laço verdadeiro.
Contradição viva, tempestade e calma,
Um circo de infinitos que cabem numa alma.
Mas quando o relógio para e o silêncio se faz,
Sou só o cara simples em busca da sua paz.
Um peito cheio de sonhos que ainda quer voar,
Entre o mundo da mente e o chão onde estou a pisar.
Um viajante da noite, moldado em sombra e luz,
Guiado pelos sonhos e a loucura que o conduz.
Um verso não terminado, um enigma em construção,
Sem rótulos, sem regras, sem medo de recomeçar...
Sou o criador da peça e o espectador do próprio olhar.
No fim do abismo, eu sou eu — o dono da minha própria ilusão.