Cisnes
1.
A carne oculta de tão bela,
a luz na face semi-descoberta;
um olho espreita do lado do sol
espantado e selvagem, animal
próximo da fonte original onde afinal
se une a bela ao monstro mais brutal
O choque do olhar casual de súbito passado
ficou aqui, aquém de ti, fixado
"Tudo menos ser mulher"
amarga mais tarde tu disseste
a este baixo ser que te desejou
rebaixando sem saber o ser superior -
ó rapariga sem rosto e sem sepulcro -
que foste para esse homem inferior
infame esbanjador do teu pudor -
dupla vileza de quem evita a bravata
de conquistar para si a sua amada.
A vida da roupa sobrevive ao teu olhar:
sobram desse tempo só os traços com que o vento o
despede na roupa que me acena
És realmente o muito e o pouco que sobrou
a quem não tem passado nem existe
nem mesmo morreu a acumular velhice
2.
Oiço e reoiço até à exaustão
uma elegia da inocência dum jogo popular
enquanto a jovem turba luta às portas da cidade
trocando o cauto seio pelo chão da realidade
sacrifício requerido numa adulta idade
inconcebível porém em assuntos de beleza
para quem, impuro, carece de pureza
para quem, exilado a idealizar a moça imerecida
nessa fronteira indecisa onde nada já começa
aos vinte, peço perdão, trinta e tal anos de idade
na cidade de Veneza onde cedo perdeu a mocidade
A criança é realmente pai do homem
e eu criança velha com a inveja disfarçada
de pretender poupar a juvenil beleza ameaçada
por esta diária saga que nos suga;
quisera poupá-la à aventura que não ouso
embora de aparência velho... ou novo?
É difícil encontrar quem tema mais a realidade
e tenha na juventude um lugar de sofrimento
que com a distância sofre aumento
Neste cabo do mundo entre tic e toc
vem comigo Odette modelar no gelo
um boneco de neve belo e singelo