Apenas um adendo, minhas resenhas são com base no que o filme me faz refletir, caso tenha uma outra reflexão por favor compartilhe
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Querô é o retrato cru do que a sociedade insiste em jogar para debaixo do tapete e ignorar como se não existisse, e que, quando por acaso ousa aparecer, faz de tudo para sumir com ela imediatamente.
Quando um jovem que nasceu de uma prostituta que morreu com ele ainda bebê tomando querosene, foi criado por sua cafetina sendo espancado e diariamente tem que lutar para ter um lugar para dormir, comida para comer e roupas para usar, será que realmente dá para julgar e apontar o dedo na cara desse jovem e dizer que ele está errado de ter raiva, de ter ódio da sociedade e de tudo à sua volta? Como que eu vou olhar um jovem desses nos olhos e dizer que a vida pode ser boa, se tudo o que ele vivenciou e todas as pessoas que ele conheceu provaram o contrário?
Em seu roubo, ele aprendeu que na vida não se tem confiança, mas, mesmo assim, ele não entregou ninguém. Na Febem, ao pedir ajuda e ouvir com todas as letras que estava sozinho, ele aprendeu que não tem amizade, e, após isso, foi estuprado, onde teve de tomar pontos devido a tamanha violência; mesmo assim, após ter toda a sua dignidade e honra roubadas, não entregou ninguém. Após fugir da Febem, ir para a igreja, conhecer uma menina legal e começar a trabalhar no porto de Santos, mesmo assim o passado volta, o espanca, o ameaça e lhe dá mais um ensinamento: não há esperança, não há redenção e, principalmente, o ensinamento mais cruel: ele não é merecedor de viver.
Há alguns dias, saindo do trabalho, eram umas 20:30, e o único comércio ainda aberto era o meu; a avenida inteira já estava fechada, pois a maioria fecha às 18h ou 19h. Um menino me parou: baixo, magrinho, vestia uma regata larga, um short pequeno, um chinelo velho e o cabelo bagunçado sem corte. Esse menino carregava três caixas de bala; ao todo, dentro das caixas, tinham 11 pacotes de bala, cada um por 6 reais. Ele me pediu para comprar, pois só podia ir embora depois que vendesse tudo. O menino era desenvolto, falava bastante; nesse papo breve, perguntei sua idade, e ele me disse que tinha 10 anos. Perguntei se estudava, ele disse que não. Perguntei onde estava a mãe, ele disse que em casa. Mas o ponto onde quero chegar é: olhe a condição em que esse menino estava nessa pouca idade. E é ingenuidade fingir que a sociedade olha com bons olhos para esse menino; trata como marginal, lixo, melhor dizendo. Então me diga: como querer que esse menino não se torne outro Querô?
Para finalizar, eu irei misturar duas músicas do grupo Facção Central que se encaixam dentro dessa realidade triste:
"Eu me sinto um produto descartável
Desprezado no depósito dos rejeitados
(...)
O seu papel devia ser cuidar de mim
Não me espancar, torturar, machucar, me bater
Eu não pedi pra nascer"
Nota: 5/5. Recomendo. A forma como retratou a minha cidade de Santos longe dos bairros mais nobres é muito bem feita, as pessoas no dia a dia muitas vezes esquecem que aqui há uma parte extremamente marginalizada.