Olá, pessoal, sou um médico CLT em uma UPA Cu de Baixo de uma quebrada de São Paulo e me ocorreu um caso lamentável, no qual acabei tendo um um impasse com o colega da emergência.
Esse colega e a namorada dele tocam juntos a sala de emergência. Ambos generalistas corajosos sem RQE. Sempre tive relação ok com ambos. Eu sou contratado para ficar na porta, atendendo 60-90 pacientes/plantão, a maioria atestadites, mas em alguns casos atendo pacientes dignos de maior atenção. Na semana retrasada, por exemplo, eu peguei um caso de um idoso com pneumonia adquirida na comunidade + FA de alta resposta ventricular, com FC oscilando muito, entre 60 e 170 bpm. O paciente estava com GCS 15, PA e FR ok, saturando bem, e com uma consolidação à direita ao rx. A queixa dele era de cansaço intenso aos esforços, palpitações, dor torácica e tosse. Labs até que ok, sem grande leucocitose, PCR em apenas 1 (a referência é que seja < 1 no laboratório da UPA Cu de Baixo), 1ª troponina quantitativa bem baixa... Mas tinha uma FAARV no ECG. E ele não tinha conhecimento prévio sobre essa FA.
Então decidi fazer controle de frequência com o paciente monitorizado, conforme preconiza o ACLS e como costumo fazer em outros hospitais onde trabalho, e então, depois de compensar o paciente e repetir o exame de tropo, se tudo desse certo, dar alta com betabloqueador e ATB.
Aí fui passar o caso à equipe da emergência, pois, afinal, eu não poderia abandonar a porta. Mas o médico da emergência estava vendo futebol, extremamente irritado, e disse para eu dar alta para esse paciente com betabloqueador para casa, sem controlar a frequência na sala de emergência, porque era "apenas uma FA sobreposta à PNM". Aí me recusei a fazer isso. A colega ficou tentando me convencer a dar alta, mas discordei e falei que não faria isso, porque não é o que é preconizado no ACLS. Ela ficou muito irritada comigo, disse que o ACLS "só serve para conduzir PCR" (kkkkkkkk) e deu alta por conta dela, falando que o metoprolol EV “faria uma hipotensão” no paciente, que seria "perigosa demais" essa conduta.
Engraçado que já corrigi tanta FA com metoprolol e nunca vi uma hipotensão significativa ao fazer lento, com o paciente monitorizado. Minha conduta era de fazer metoprolol 5 mg EV, repetir se necessário, e decidir anticoagular com base no CHADSVA2 - mas ele pontuou apenas 1, então não daria anticoagulante. Ela deixou o paciente com carvedilol + apixabana + amoxicilina e azitromicina para casa, mesmo ele fazendo FC de 150~170 bpm ao monitor. Achei errada a conduta, mas vida que segue...
Até que ontem voltei ao meu plantão e esse mesmo paciente voltou. Retornou como ficha amarela, dizendo que ainda estava com palpitações, dor torácica em aperto, sintomas de refluxo e mal estar geral. Disse que tomou os remédios prescritos por ela por dois dias, mas sentiu "muito mal estar", então resolveu suspendê-los por conta própria, mantendo apenas os antibióticos, que "tomou certinho". Pedi novos exames. Nesse meio tempo, o paciente evoluiu com um mal estar importante e foi transferido pela enfermagem à sala de emergência. Ele ainda estava com uma FAARV e, dessa vez, a 1ª troponina bateu 300. Depois, a 2ª dosagem bateu 700. Dessa vez, o colega da emergência foi obrigado a conduzir o caso com seriedade, e o paciente foi transferido à UTI de um hospital referência da região.
E assim ocorre a rotina de trabalho na UPA Cu de Baixo. Se você é médico e ama sua família, pague convênio e vá aos melhores hospitais que você tiver direito! NÃO VÁ À UPA E NÃO DEIXE NINGUÉM QUE VOCÊ AMA IR À UPA CU DE BAIXO!