Dizem que sou abençoado pelas vias do meu caminhar,
Mesmo sem sorte ou privilégio, cheguei a algum lugar.
Mas na penumbra do peito, um abraço gelado me alcança,
A velha solidão que me acompanha desde criança:
"Ninguém te entende, você não se encaixa nesta dança."
E parecia verdade... Pois sempre que eu tentava falar,
Ecos de um louco ressoavam no ar.
Até que li nas páginas de um livro qualquer,
O aviso velado do que o mundo requer:
Tolo é o homem que anda de cara limpa e sem pudor,
Pois a vida é um baile de máscaras, falso e cenográfico teatro de dor.
Levei tempo para compreender a lição,
Olhando as sombras ao meu redor em silêncio e atenção.
Percebi que para pisar no palco da sociedade,
É preciso cobrir o rosto e esconder a verdade.
Mergulhei no fundo da minha própria mente,
Atrás do disfarce que me fizesse consciente.
E achei a máscara perfeita para o meu papel:
A do louco sonhador, que olha o abismo e o céu.
Sob ela, posso ser o rei que eu quiser,
Criar mundos de sombras e ser o que der.
Mas como explicar este enigma cruel?
Tenho laços sinceros, um amor fiel,
Amigos e colegas debaixo do mesmo teto...
E ainda assim me sinto um estranho no próprio teto.
É a estranha sensação de quem sempre viveu no aquário,
Pequeno, protegido, em seu vidro solitário,
E que de repente, sem mapa, aviso ou direção,
É atirado no oceano violento da amplidão.
Com uma única ordem ecoando ao redor:
— Vá e viva... se for capaz de nadar na escuridão.