Olá,
Antes de mais nada, o post é longo e não é necessariamente uma dúvida, mas sim uma compilação de coisas que nunca entendi bem na época em que aconteceram, e que vão se encaixando com o passar do tempo. Talvez a perspectiva de alguém que descobriu a existência de assexualidade muito tarde seja útil para alguém, então aqui vai.
Comentários rápidos sobre mim: sou 34H, e tenho quase certeza de estar no espectro autista (leve e com alguns indícios apesar de eu nunca ter buscado o diagnóstico). Sou tímido com pessoas que não conheço e me abro mais depois de um tempo.
Vou começar de algumas décadas atrás para fins de contexto. Desde pequeno fui sempre o CDF da turma, como chamávamos na época. Sem fazer bagunça, notas altas em todas as matérias, bem estudioso. Nunca fui de me meter em encrenca e sempre busquei fazer as coisas certas.
Ao longo do ensino fundamental e, principalmente, ensino médio, meus colegas começaram a conversar ou fazer comentários sexuais (naquele nível adolescente, como podem imaginar), mas eu sempre me senti, e hoje é a melhor forma que eu consigo descrever isso, deslocado. Esse tipo de conversa sempre me pareceu extremamente desnecessário.
Sempre pensei que era por conta de ser o aluno modelo... quem estuda e quer se dar bem não deveria se interessar por essas coisas. O dever para mim era passar em alguma universidade e pronto.
As coisas aconteceram exatamente dessa forma... passei na universidade que queria e agora tudo era mais difícil. Tinha que estudar o dia todo. Não tive nenhum relacionamento até o fim do curso, não era uma prioridade e eu nunca fui de ir em festa ou locais muito agitados.
Mais ou menos na época do fim da universidade eu conheci uma menina por conta de um interesse em comum e nos falávamos de quando em quando. Com o passar dos meses começamos a nos falar mais e mais, até que chegou um ponto em que nós passávamos várias horas por dia conversando e fazendo coisas juntos.
Começamos a namorar oficialmente em certo ponto. Não é necessário dizer que esse foi meu primeiro relacionamento. Em retrospectiva, foi um período extremamente importante para mim, de erros, acertos, e auto conhecimento. Aqui que a parte da assexualidade começa a entrar na questão.
Eu gosto de contato, beijar, abraçar. Gosto de ouvir a pessoa falar sobre qualquer assunto que ela goste. Porém neste relacionamento eu também comecei a notar que a relação sexual em si sempre foi muito esquisita. Exatamente todas as vezes eu me senti, de novo, deslocado. Era algo muito mecânico, pesado, não parecia muito certo, me trazia uma ansiedade gigantesca. Eu não conseguia relaxar e me deixar envolver.
Eu ainda fui várias vezes porque a vontade era de tentar de alguma forma satisfazer a pessoa e acabava me sentindo meio bosta. Ela sempre foi muito aberta, paciente, tentando me ouvir, tentando entender, tentando perguntar se eu tinha mais alguém para conversar.
Aqui eu ainda não tinha a menor ideia... nunca tinha ouvido falar de assexualidade, não saberia nem verbalizar o que eu sentia. O meu pensamento era que se eu pudesse magicamente satisfazer a pessoa, tudo funcionaria.
Isso não aconteceu... terminamos por uma série de motivos (válidos) depois de cerca de 1 ano de namoro, mas obviamente a questão sexual era bem proeminente na minha opinião. Olhando para trás, terminar foi com certeza absoluta a melhor decisão.
Não tive nenhum relacionamento depois desse e nem busquei. Depois do término eu comecei a focar muito no trabalho e assim foi por vários anos. Estava bem comigo mesmo, estava tudo funcionando, estava "auto suficiente". Talvez eu estivesse destinado a ser só?
Agora, eu não acompanho e nem nunca acompanhei o Cellbit (acho que é esse o nome?), porém uns anos atrás eu comecei a ver algumas coisas no YouTube sobre alguém acusando ele de alguma coisa, e fui ler um artigo sobre. Aqui que eu fui pela primeira vez ouvir do termo assexualidade.
Na época eu lembro que fui procurar no Reddit por algum sub e encontrei a comunidade irmã dessa em inglês. Até aqui eu não tinha a menor ideia da existência do conceito, mas aquilo fez bastante sentido para mim. Eu nunca olhei uma pessoa e comecei a pensar em como seria fazer sexo com ela. Nunca tive nenhum sonho envolvendo sexo. Nunca me masturbei pensando em sexo. Nunca gostei de pornô. Nunca participei ativamente de nenhuma conversa com meus amigos sobre sexo. Poderia viver sem sexo pelo resto da vida.
Ainda assim, depois dessa exposição inicial ao conceito, não voltei mais a pensar à fundo no tema. Continuei e continuo bem comigo mesmo, com meus hobbies/trabalho/atividades.
Eu estou em uma espécie de limbo onde relacionamento não é uma prioridade à ponto de eu ativamente procurar, mas ao mesmo tempo a ideia de em algum momento encontrar a parceira certa me é extremamente reconfortante.
A perspectiva da procura porém é bem desencorajadora...